Sue… Sue. Sue. Sue.
Mas porque papai aprontaria logo com ela? Sabe, ela nem é tão bonita quanto Monique, e é chata. Não, fala sério, ela é muito chata… Toda controladora, metida a proteger todo mundo… disposta a fazer o Deus nos acuda se alguém se machuca, seja quem for. Ela é uma idiota, uma chata, e esse foi um dos motivos das minhas fugas para a casa da tia Lú quando eu era menor.
Fui a casa de meu pai para contar a ele minha descoberta aproveitando que Benjamin estava lá, e confesso que papai bem envergonhado ao começar a me explicar as coisas.
- Eu, bom, gostei de Sue de alguma forma.
- Mas de que forma? Ela é… chata. E controladora. Acha que é possível proteger todo mundo ao mesmo tempo… idiota.
- Sabe, você é parecida com ela. Percebi isso quando nosso falecido cachorro Barão fugiu, foi para o asfalto e você se desesperou! E depois foi minha vez de me desesperar quando você se atirou na frente do ônibus para tirá-lo do caminho. ”Pare esse ônibus, pelo amor de Deus, motorista!” – ele riu ao lembrar do meu esforço.
- Não me lembro disso… – claro que me lembro, mas eu não daria essa moleza – E eu não me pareço com Sue. Ela-é-chata, papai, por favor, né?
Tudo bem, eu sou parecida com ela. Mas é só isso. Não é…?
Peguei uma foto de Sue e outra minha e comecei a perceber as semelhanças. Meu cabelo tem a mesma cor, a boca com o mesmo formato de coração e o mesmo corpo. Mas graças as características de Eduardo, eu não nasci tão feia quanto eu deveria.
- Papai, porque criou Benjamin se ele não é seu filho? – vi a mesma curiosidade nos olhos de Benjamin quando fiz a pergunta.
- Sue dizia, – ele recordava disso com um sorriso delicioso – que meu coração era bom demais, e quando vi seu ‘irmão’ pela primeira vez, mesmo sabendo que ele não é meu sangue, quis criá-lo.
- O senhor suportou muita mentira, não é? O respeito por isso…
- Obrigada, minha filha – ele me deu um abraço que há muito tempo não recebia -, mas até que não tive que suportar tanta mentira assim, eu sempre soube de tudo.
- Mas porque o senhor continuou com a Monique, mesmo sabendo de tudo isso e amando Sue? – dessa vez, foi Benjamin quem perguntou e fiquei pasma ao ver que ele já entendia de amor -. Quer dizer, se não havia amor entre os dois e ambos sabiam disso, porque permaneceram com essa vida? Porque vocês simplesmente não seguiram a vida com quem amavam de verdade?
- É uma longa história. E não é tão feliz assim…
- Ultimamente eu não venho tendo muitos momentos felizes, estou anestesiada, papai, na verdade, eu e Benjamin estamos. – o confortei e ele começou a história.
Bom, a história de Monique é bem conturbada, como sua personalidade. Ela conheceu Marildo aos treze anos de idade e desde então, ele foi o amor da sua vida. Mas seus pais não permitiram, pois meu ex-chefe sempre esteve envolvido com o Beco.
E como uma boa apaixonada, Monique decidiu que faria qualquer coisa para estar com ele e foi aí que conheceu papai. Eduardo sempre foi bonito, elegante e com um coração enorme, grande até demais e é depois da aparição de Sue que as coisas começaram a se complicar.
Sue estava numa baita confusão quando conheceu meu pai. Tinha batido em algumas garotas na escola, ela devia ter seus dezesseis anos, e tiveram que chamar a polícia. Bom, claro que ela fugiu e entrou na casa do amigo de Eduardo, eles estavam jogando cartas quando ela entrou desesperada pedindo para que escondessem-na. Papai conseguiu convencer o amigo dele a ajudar Sue até a confusão acabar.
Mas depois de algum tempo, começaram a bater na porta descontroladamente. Sue foi a primeira a ver pelo olho mágico quem era, e era justamente uma das garotas querendo acertar contas. Papai sentiu que deveria tirá-la dali e pularam a janela. Como a casa dele era de fundo com a de seu amigo, pulou a janela e entrou no quarto. A coisa começou a esquentar e nenhum dos dois se controlou, aí que eles me fizeram. Chega a ser nojento… Eca.
Depois dos obrigatórios nove meses eu nasci, tempo suficiente para que Sue e Eduardo se apaixonassem e Monique começasse a ter ideias criminosas. Me sequestrou e me deixou no Beco. A confusão se armou e ficou cada vez mais tola. Minha ex-mãe não queria dinheiro, só queria um álibi. Se Eduardo fingisse seriamente ser marido dela, ela me devolveria a Sue, só para enganar seus pais. Foram três semanas desse jeito, Sue lutava contra essa opção enquanto Eduardo não via outro modo para me salvar. Mas, chegar a esse ponto… A Monique é uma psicopata!
Papai concordou, com pena do amor que Monique sentia por Marildo, até porque minha ex-mãe e meu pai eram amigos e ele acompanhou toda a história.
Sue se revoltou por perder a chance de se casar com Eduardo e fugiu. Me abandonou por causa da rebeldia e não tentou ser compreensiva, assim que papai me contou. Depois de um tempo, mais ou menos 2 anos, minha mãe biológica voltou dizendo estar arrependida e disposta a viver uma mentira para estar perto de mim e me proteger.
E a história se resume a isso. Por amor, eles decidiram viver uma mentira. Por mim. Acho que começo a sentir um pouco de amor por Sue. Minha mãe.
- Tudo gira em torno do amor então. – eu disse, meio distante.
- Sim, e você está seguindo os mesmos passos, só que de um modo diferente. Você quer proteger Brigt da morte, mesmo sabendo que não passava de tentativas em vão.
- Sei disso… Coitada de Sue e do senhor.
- Monique também não é tão ruim assim. Entenda, era o amor de sua vida.
- Eu a entendo, mas continuo sentindo desprezo. Ela está fazendo o mesmo que Brigt, mas eu não quero salvá-la. Marildo também esteve errado por permitir que ela entrasse nisso, se ele a amasse a protegeria. Amar é proteger, e as vezes deixar a pessoa amada seguir sua vida em paz.
- Você acha isso, mas ela não sabia.
- Não me interessa mais, ela fez o que era errado. Mas você e Sue só queriam me proteger e isso é compreensível, apesar de minha… mãe – é tão estranho me referir a Sue como mãe – ter fugido. Mas ela voltou e se arrependeu sinceramente, isso que importa.
- Então você a perdoa? – papai perguntou com um brilho nos olhos.
- Claro!
Então é isso. Eu descobri quem é minha mãe afinal.
Apesar de tudo, houve algo feliz nessa história. Só não sei o que.
- E porque Sue foi para a Rússia?
- Para despistar você. Ela não está na Rússia, ela está aqui em Becam.
- Mas o número de telefone que liguei não é de Becam, veja! – peguei os bilhetes no meu bolso e entreguei a ele.
- Marildo deve ter feito algo quando foi arranjar os telefones.
É.
- Bom, e como fica o Beco agora?
- Por direito, o Beco é de Benjamin agora.
- DE BENJAMIN? Tem certeza, papai? Mas ele é tão jovem…
Meu irmão se assustou tanto quanto eu.
- O Beco agora é meu? Deus me livre, papai. Eu sou muito novo pra entrar pro crime agora. Eu não quero.
- Você pode escolher alguém para assumir o cargo até que complete dezesseis anos. Provavelmente escolherá você, Elízabeth
- Eu não vou aceitar, Benjamin. Não quero tomar conta daquilo. Ter que topar com Brigt o tempo todo… Argh. – subiu um calafrio nas minhas costelas. – E fora que teremos mais uma disputa, e agora é pelo poder.
Papai não parecia chateado com a situação, na verdade ele está bem orgulhoso de ter sido ele a me contar.
A história de minha família eu já sei, agora está na hora de escrever a minha e a de Benjamin. E a minha não começou muito bem.
- Papai, prometo que protegerei Benjamin enquanto eu tiver forças para isso, e não vou deixar que nada de mau aconteça com ele.
- Por favor, Elí. Não me prometa algo assim, a máfia não é tão estável assim e podem vir surpresas de todos os lados. Tome cuidado.
Benjamin, que agora estava mais calado, demonstrou-se bem preocupado com sua situação.
